A cena é clássica: o cliente entra e pede: “Estou procurando um presente. Tem cerveja de mulher”? Eu respiro fundo elá vamos nós de novo! Com muita calma e vontade de mudar o mundo, lanço outra pergunta:

“O que é cerveja de mulher?”


Foto: Pixabay


Quando me iniciei no mundo das cervejas especiais o que mais me inspirou sempre foi a variedade e sutilezas de cada estilo. É um mundo muito amplo e democrático. São centenas de tipos, cores, aromas, sabores e possibilidades e tem cerveja para todos os gostos, até para quem não gosta de cerveja. Cerveja é para todos. Cerveja engloba, agrega, nos faz compartilhar histórias, vivências e descobertas, fazer amigos. Mas mesmo assim, mulheres que trabalham na área ou consumem cerveja ainda vivenciam situações de rejeição. 

Perdi as contas de quantas vezes, ao cumprimentar um cliente me dirigindo para atendê-lo, vê-lo passar reto ou ouvi-lo dizer preferir ser atendido por homem “que deve entender mais de cerveja”. Outra situação comum é perguntarem se sou casada com o dono do empório, como se uma mulher não pudesse se interessar por cerveja por livre e espontânea vontade, só se for por ser extensão de um homem, ou como se ela não pudesse ser a própria dona do negócio. “Você está aqui só para enfeitar a loja?”, “Moça, tem alguém aqui que poderia me explicar a diferença dessas cervejas?” –“Sim, eu!”. Cara de estranhamento e dúvida. 

É irônico passar por isso quando a história da cerveja está conectada à mulher: na Antiguidade e na era medieval a cerveja era produzida por mulheres. Até o século 15 as mulheres produziam cerveja para consumo doméstico e também comercial, administrando tabernas. Aos amantes de lúpulo, agradeçam a uma mulher por suas cervejas serem amargas: Hildegard von Bingen, cientista, freira e cervejeira foi quem descobriu a utilidade do lúpulo para a cerveja no século 12.

Foi só depois do século 16 que a mulher ficou mais apagada no mundo cervejeiro. A produção passou a ser industrial e aí os homens, com mais recursos financeiros e de educação, conquistaram o mercado. Mas superando as adversidades, a mulher continuou a se envolver no “clube do bolinha”. Um exemplo perfeito é a da cervejaria alemã Schneider. Depois da morte do marido cervejeiro, Georg, Mathilde Schneider se envolveu ativamente na administração e produção da empresa. Sob o seu comando, a cervejaria se tornou a mais bem sucedida do sul da Alemanha antes da Primeira Guerra Mundial. Foi ela quem criou a receita da primeira cerveja Weizendoppelbock do mundo, a potente e complexa Schneider TAP 6 Aventinus. 



Foto: Maria Fernanda Gottardi


Mesmo com muitos exemplos tristes de machismo no mercado, recentemente temos visto algumas campanhas publicitárias e inciativas acertadas que deixam os estereótipos de lado, abraçando os consumidores de cerveja como um todo. O mercado está cheio de mulheres na liderança de cervejarias e empreendimentos e como docentes na educação voltada à área cervejeira. As consumidoras estão também cada vez mais antenadas. Não existe mais lugar para estereótipos. 

Mulheres consumidoras e produtoras de cerveja não deveriam ser vistas com estranheza, afinal elas já estiveram lá antes. Lembra daquela tal “cerveja de mulher”? Então, ela não existe; assim como não existe cerveja de homem. Não duvido que realmente algumas esposas, namoradas e amigas das pessoas que falam assim gostem de cervejas leves e doces, mas muitas vezes é falta de perguntar o que ela prefere ou se ela gostaria de experimentar outro estilo e até de incentivá-la a ampliar seu paladar. 

Mulheres não querem uma cerveja feita para elas baseada em estereótipos. Mulheres são diferentes e não pensam e gostam das mesmas coisas, assim como os homens. Elas querem beber a cerveja que as faça sentir bem sem receber críticas, zombarias e desrespeito, seja a cerveja que ela escolheu amarga ou doce, leve ou bem alcoólica, não importa. Se a cerveja é boa, vamos aproveitar! Vamos nos divertir, rir, degustar os momentos sem julgamentos! Assim dá para a gente pensar em uma pequena grande modificação para a célebre frase do Kaiser Wilhelm: “Me dê uma mulher que ame cerveja e nós vamos conquistar o mundo juntos!” Que tal? 

CERVEJA ARTESANAL - Por Maria Fernanda Gottardi

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